Os outros.

Funny thing. Não importa o quanto eu aprenda a lidar com todas as coisas que eu sinto, não importa o quanto seja difícil manter as coisas em ordem, sempre houve e sempre haverá alguém com o intuito de subjugar e tentar diminuir. Essa é a lei da vida e, aparentemente, não há nada que torne possível uma mudança. Os dias permanecem estáticos, a angústia é permanente; vivo em um estranho estado autodefesa, ousadamente criado pela necessidade desesperada de compreender a mim e os que estão ao meu redor.

Eu fui “normal” até perto dos dezoito anos, coisas ocorreram, minha avó morreu e, com isso, veio meu primeiro caso de letargia total. Por meses, eu sentava no sofá apenas esperando o momento em que ela voltaria para casa, mas isso nunca acontecera, a espera fora em vão, não houve aceitação, não houve nada, apenas o total choque perante a situação acontecida. Preocupação, médico, psiquiatra e a primeira notícia. Esse foi o gatilho para a primeira crise, posterior a isso, foram séries infinitas de repetições, um ciclo permanente de sensações, sintomas, momentos e, novamente, lá estava eu, imerso em mim mesmo, perdido no devaneio absoluto das conexões desconexas do meu cérebro.

Terapia – Remédios. Remédios – Terapia. Tudo soava como um mantra cantarolado infinitamente com o propósito de fazer-me crer na recuperação breve e simples. Ainda lembro de como foi a sensação de quando me disseram pela primeira vez: “tu tens uma depressão profunda, rapaz. Vamos começar com tal medicação e vemos esperar os primeiros resultados. Eu também te aconselho que tu procures um terapeuta, vai te ajudar bastante falar com alguém.”. Sinceramente? Não era nada que eu já não desconfiasse ou soubesse, eu apenas aceitei a receita, da mesma forma que aceitara várias receitas para dor de garganta ou resfriados. Não, eu não senti nada.

Hoje tive um momento semelhante, como de rotina, conversei com o médico para que ele me prescrevesse a quantidade do mês dos remédios. Desde a primeira vez, passaram-se alguns anos, a situação já é tão corriqueira que nem mais agradeço, apenas expresso aquele simples “valeu”, viro as costas e vou embora.

No entanto, tais lembranças apenas retomam fatos, apenas constroem um pequeno emaranhado de acontecimentos do dia. O dia não foi tão simples, tudo parecia simples, parecia normal, mostrou-se completamente diferente do esperado. Como de costume, dormi as minhas aproximadas 10 horas, levantei, tomei café, fumei dois ou três cigarros, pensei em algumas coisas sobre a forma como eu lidaria com o mundo a partir do momento em que saísse de casa – sim, esse é um ritual, você pode achar que não é importante fazer isso, mas para quem tem depressão é importante, sim. É essencial você lidar com a vida como se fosse uma partida de xadrez, não pode haver surpresas, não pode haver discrepâncias, qualquer coisa assaz extraordinária e tudo cai por terra.

Nesse sentido, confesso ter pecado e ter cometido a infelicidade de não prever algumas coisas futuras, coisas tão próximas, mas completamente ofuscadas pela possibilidade de, talvez, imaginar poder ser ao contrário. Por indicação de uma pessoa, fui a uma entrevista de emprego (eu tenho um emprego, até onde é possível enxergar, tudo na minha vida é normal), atendi à insistência incrível, aproveitei o intervalo do trabalho, saí às pressas e fui. Algo me dizia qual seria o resultado, mas, afinal, entre a cruz e a espada você não tem muito a pensar, apenas agir.

Diante da proposta, diante das condições, não aceitei a oferta, não por vaidade, não por desrespeito ou por descaso, apenas concluí que, de acordo com as minhas condições, não seria possível aceitar e simples assim. Não é não e acabou o assunto. Pois é. Ledo engano o meu, afinal, como falei no início deste texto, todos estão sempre prontos a disparar mil julgamentos e julgarem-se muito melhores em todos os aspetos da vida; todos são melhores em tudo, são perfeitos em tudo, porém são incapazes de olhar-se no espelho.

Eis o declínio, a perdição; aquele momento de total vazio e descontentamento, a versão negativa daquele sorriso ensaiado desde o momento de sair de casa até chegar no trabalho, o sorriso mascarado do dia todo estilhaçando-se como uma bomba, a sensação de impotência, o soco na alma, a martelada do juiz. Não, eu não sou vagabundo por não querer o mesmo que outras pessoas querem, não sou incapaz apenas por pensar diferente, por ser diferente, e eu não sou uma daquelas pessoas que não é feliz se não estiver ganhando milhões por mês. Sou apenas eu mesmo, tentando ser eu mesmo e lutando constantemente para viver nesse mundo insano e, principalmente, continuar querendo viver nesse mundo insano.

Por mais doloroso que seja, por mais cruel e terrível que possa parecer, sinceramente, não se deixe levar por comentários alheios, não tente fazer parte de um mundo ao qual você não faz parte. Não force a sua entrada em lugares que sabidamente far-lhe-ão mal, de verdade. Se você sente a mesma angústia de viver, a mesma vacuidade existencial, se mutias vezes nada no seu mundo faz sentido, não deixe outrem tentar lhe mostrar como se faz. Ter depressão realmente não é o fim do mundo, há, sim, uma sensibilidade maior em cada aspecto do nosso ser, mas proteja sua sensibilidade, torne-a fechada aos outros. Eu posso não entender nada da vida, assim como você, que pode não entender nada da vida, mas sempre entenderemos de nós mesmos. Não olhemos para o abismo.

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How to look into the hole.

Tudo é sobre ela, sempre comigo, demônio irreprimível há aproximadamente dez anos. Um dia ela adormece e tudo parece viável novamente, a vida segue seu rumo, eu posso caminhar pela rua, encarar as pessoas como se não houvesse nada de errado; lá no fundo algo grita, urge por ser libertado da caixa de pandora. Deito e durmo, adquiri o hábito de quase dez horas diárias de sono: alguns pensam ser preguiça, outros pensam no fato de eu apenas ser uma pessoa notívaga, que gosta de dormir tarde e acordar tarde.

Não é bem assim. As noites normalmente não acontecem como deveriam acontecer, eu sinto sono, não sinto vontade de dormir, atravesso madrugadas envolto em pensamentos tão cretinos e débeis a ponto de enganar a mim mesmo, a ponto de pensar na possibilidade de poder acordar no mesmo estado de calma do dia anterior: é mentira. Uma mentira que conto a mim mesmo há tanto tempo que já perdi a conta. Uma mentira contada mil vezes não se torna uma verdade, o abismo está sempre ali; eu estou sempre ali, as vezes desejo encontrar o fundo e não levantar mais, ceder à tentação e esmorecer à luz difusa de uma luminária amarelada em cima do armário. Me enamoro diariamente do total controle descontrolado da vida, tento assumir as rédeas, mas os cavalos já galopam a tal velocidade que não sei mais nem aonde estou. Assim caminham alguns dias.

O revés da moeda é simples, há o dia bom e há o dia ruim e, acredite, para mim, nos dias ruins o tempo é apenas relativo, um minuto tem 60 horas, um dia tem 24 semanas; o espaço tempo, aqui, simplesmente é suspenso e cada dia é uma eternidade. É como estar vendado com um plástico transparente a me fazer enxergar tudo diferente.

Há dias penso em um texto de abertura para este projeto, mas, acredite, nada me vinha à mente, nada parecia fazer sentido completamente, então desloquei as ideias e deixei de procurar sentido, simplesmente me atrevi a compartilhar nonsense, na esperança de que alguém procure por algo semelhante, encontre este link e consiga me compreender.

Eu não respondo por mim mesmo na maior parte do tempo, sim, eu tenho depressão, há anos convivo com ela, tento me esquivar, no entanto, não há razões para mentir aqui, alguns dias eu simplesmente não tento me esquivar, não tento dissuadir a ideia de que há uma perspectiva melhor, eu apenas afundo; afogo a mim mesmo em pensamentos e catástrofes internas, desejo uma saída, porém não a encontro nunca. Tento abrir portas trancadas, tento gritar – mas como em um pesadelo, não há som, não há controle, não há imagens. O que eu vivo é um pesadelo cruel, reforçado por imagens rítmicas de um incessante cansaço. Sim, viver cansa. Viver também mata.

Viver mata aos poucos, é diligente, cuidadoso, detalhista, tão cruel e tão hábil que é completamente ético, está dentro de todos os códigos da moral ética, religiosa, legal e pessoal. Todos nós morremos, alguns mais cedo, outros não; alguns morrem tão lúcidos quanto se estivessem no auge dos 30 anos, outros tão desprovidos de inconsciência que nem sabem o lugar em que estão e o que fazem ali. Esses últimos, com certeza são os sortudos.

Entretanto, imaginar a consciência da própria morte constante, para muitos, é a alegação residual do diagnóstico que todos dão aos que sofrem de algum transtorno: “ele está triste, não sabe lidar com a tristeza”, então eu me fecho em mim mesmo e permaneço no meu lugar isolado, sei que aqui existe algum conforto para esta dor crônica. Continuo tentando viver uma realidade a qual me leva a fingir descaradamente todos os possíveis sentimentos existentes, todas as concepções e todas as leis culturais. Tudo é fingimento. São apenas algumas das infinitas máscaras que usamos diariamente na tentativa desesperada de nos encaixarmos, na tentativa fútil de parecermos normais.

Uma semana tem 7 dias. Um mês é composto por 4 semanas. Um ano e você perde a conta, no início há tanta esperança de voltar ao normal, viver uma vida tranquila, planejar o futuro, planejar o que será feito amanhã. Em seguida há uma certa apatia, uma mistura prolixa de sentimentos bons e mais uma dose de esperança, então você simplesmente retorna ao ponto inicial, porque cansa. Quem diz que lutar contra a depressão não cansa, está mentindo. Cansa mais do que correr, praticar esportes, participar de uma maratona, pedalar vários tantos quilômetros a ponto de chegar em casa sem nem sentir as pernas. Felizes são os que não podem sentir as pernas, porque, as vezes, eu simplesmente não sinto nada.

Eu precisei três dias bons e um simples dia ruim para conseguir escrever esse texto. Minha ideia não é que ninguém realmente me compreenda, também não procuro empatia, pena de possíveis pessoas que apenas se contentam com a leitura de qualquer relato, seja ele sexual, policial, de aventura, whatever. Eu procuro compartilhar, dividir, fazer com que talvez alguém leia tanto esse como os outros textos que também pretendo publicar e se identifique. Não, não leia “se identifique” num sentido raso e mal interpretado. Apenas espero que alguém me leia e perceba que não está sozinho no mundo, perceba que todos nós temos o nosso próprio abismo.

Esse é o meu. Agora, por favor, sente-se, pegue uma bebida. Conte-me do seu!